Artigos & Papers

Música e rádio: parceria de sucesso há praticamente um século

Estudo do IBOPE Media revela quais são os estilos musicais mais escutados nas rádios e como é a relação dos ouvintes com o meio

Artigo publicado em 20 de janeiro no Meio & Mensagem.

A música é uma das práticas culturais mais antigas da humanidade. Ao longo de sua milenar história, dois momentos foram determinantes para entender a sua evolução como arte e, até mesmo, como forma de comunicação.

O primeiro deles acontece por volta de 600 d.c., quando o Papa Gregório I institucionaliza na igreja católica o canto gregoriano, gênero que viria a ser base de todos os ritmos ocidentais, desde a música clássica, até as músicas populares que escutamos atualmente. O segundo momento – e não menos importante – acontece nos anos de 1920, quando as primeiras programações de rádio passam a ser transmitidas nos EUA. A capacidade de alcance e propagação do rádio permitiu que as músicas atingissem diversas culturas, inspirando novas misturas e ritmos regionais.

Após quase um século, o poder do rádio se mantém. De acordo com o estudo Tribos Musicais, realizado pelo IBOPE Media, o percentual de brasileiros que escuta o meio com frequência, chega a 73% nas principais regiões metropolitanas. E a música, que sempre esteve no DNA do rádio, é disparadamente o conteúdo mais consumido por esses ouvintes (96%), seguida pelas notícias (70%), esportes (31%) e humor (21%).

Um fato que contribui para que o consumo de música nas rádios seja tão relevante é que 70% dos brasileiros afirmam que a música constitui parte importante de suas vidas, um número relativamente alto se comparado a outros países da América Latina, como Argentina (58%) e Chile (53%).

As Tribos Musicais e sua relação com as mídias

O estudo analisou seis diferentes tribos musicais: sertanejos, pagodeiros, roqueiros, emepebistas (MPB), funkeiros e gospeis. A escolha baseou-se não apenas nos estilos musicais com maior penetração, mas também considerou os que ocupavam posições de destaque em duas variáveis importantes para análises comportamentais: classe social e faixa etária. Além disso, foi feito um levantamento em parceria com a Crowley, das 100 músicas mais tocadas nas rádios brasileiras de janeiro a agosto de 2013, para dar sustentação à análise.

O sertanejo e o pagode estão entre os gêneros musicais mais escutados nas rádios com 58% e 44% de penetração entre os ouvintes, respectivamente. Não por acaso, esses são os estilos musicais com a cara do brasileiro. Os dois grupos são, basicamente, compostos por pessoas de ambos os sexos, da classe C e com idade entre 25 e 35 anos.

Os ouvintes desses estilos musicais possuem boa relação com propagandas, com ligeiro destaque para os pagodeiros. Os dois grupos apresentaram uma significativa afinidade com frases do tipo “sempre presto atenção na publicidade no rádio”, “confio nos produtos que os apresentadores de TV indicam” e “gosto de ler propagandas em revistas”. Aliás, a revista é um meio que desperta interesse nesse público: 32% dos sertanejos e 34% dos pagodeiros confiam no meio para se manterem informados, enquanto 27% dos ouvintes de ambos os estilos a consideram como principal fonte de entretenimento.

Quando o assunto é rock e MPB, estamos falando dos sons de um público mais elitizado. Os amantes desses gêneros representam 31% e 47% dos ouvintes de rádio, respectivamente, destacando-se pelo alto nível de escolaridade e participação nas classes AB. O que distingue os dois grupos é a idade: enquanto o rock tem presença garantida entre os jovens de 12 a 19 anos (22%), o MPB apresenta boa aceitação entre o público de 45 a 54 anos (18%).

Os ouvintes de ambos os estilos também são considerados multimidiáticos. Os roqueiros, por exemplo, leem jornal todos os dias (30%), vão ao cinema regularmente (28%) e geralmente assistem à TV e acessam a internet ao mesmo tempo, enquanto os “emepebistas” gostam dos encartes especiais nos jornais (39%) e confiam no rádio e na internet para se manterem informados (57% e 48%). Essa diversificação do uso de plataformas no momento de consumir conteúdos é reflexo de um público bastante antenado e exigente.

Os apreciadores de funk e música religiosa, por sua vez, apresentaram mais similaridades entre eles do que se possa imaginar, especialmente devido à classe social na qual estão inseridos. Os dois estilos foram escutados nas rádios por 17% e 29% dos ouvintes brasileiros, um grupo composto, principalmente, por pessoas da classe CDE e com ensino fundamental incompleto. A faixa etária, outra vez, é o fator de diferenciação entre as tribos: mais de um terço dos funkeiros (38%) têm entre 12 e 19 anos, enquanto os gospeis/religiosos se enquadram melhor entre o público jovem, de 25 a 44 anos (45%). É importante reforçar que a música gospel, embora tenha sido classificada como um gênero, envolve todos os estilos citados acima.

Os gospeis/religiosos, por sinal, têm muita afinidade com o rádio. Eles gostam de ouvir entrevistas ou programas falados (47%) e mais da metade deles confia no rádio para se manter informado. Além disso, o meio é encarado como principal fonte de entretenimento por 30% desse público. Já os funkeiros, até pela questão da idade, têm uma ótima relação com o ambiente online, 34% deles afirmam que assistem TV e navegam na web simultaneamente e 39% deles encaram a internet como principal fonte de entretenimento.

Seja em busca de distração, entretenimento, informação ou companhia, a realidade é que todas as tribos estão sempre à procura algo em comum: experiência e conteúdo. E nesse cenário midiático altamente competitivo e desafiador, o que se espera é que as rádios continuem tendo o alcance de uma música popular, que os anunciantes tenham sempre a clareza de uma melodia clássica e que as agências estruturem seus planejamentos como verdadeiros cantos gregorianos.